5.3.06
A Ansiedade pela Conquista do Estatuto Social
Refiro-me a um tema favorito de Alain de Botton, jovem filósofo, escritor e autor de programas televisivos, de invulgar qualidade, como aquele que recentemente passou na TV portuguesa, canal 2, baseado num dos seus últimos livros – Status Anxiety –, a ansiedade induzida pela busca do famigerado Estatuto Social, grande geradora do stress, da angústia e da insatisfação com que vivemos na nossa sociedade contemporânea, apesar dos milhares de objectos e utilidades que nos rodeiam, supostamente para nosso conforto pessoal, como insistentemente as campanhas publicitárias no-lo recordam.
Na sua génese, encontramos aquele banalizado conceito, segundo o qual só existe, socialmente, quem tem o genericamente ambicionado Estatuto Social, ou quem exibe os correspondentes sinais da sua existência.
É utilizada por Alain de Botton, no seu livro, a equação do bem-estar pessoal, também designada da Auto-Estima : S = Somatório das Realizações (pessoais)/Somatório das Expectativas (pessoais), que ele foi buscar a William James, filósofo americano do século XIX, muito interessado igualmente pela Psicologia e um dos primeiros a estudar o efeito das expectativas crescentes na auto-estima das pessoas, desta forma seriamente ameaçada.
Como vemos, trata-se de uma perversa equação, visto que, por regra, para a maioria dos indivíduos, o denominador cresce mais depressa que o numerador, por mais que o indivíduo se esforce... Salvo se ele, voluntariamente, reduzir significativamente as suas expectativas, coisa quase impossível, no contexto actual em que vive, com a omnipresente publicidade a lembrar-lhe, a cada instante, todos os objectivos, quase sempre apresentados com os decorrentes prazeres associados, que lhe falta atingir para se sentir animado de uma boa auto-estima.
Para esses objectivos terá, contudo, de trabalhar, com afinco, continuamente, quiçá, de modo insano...
Daí, a sua excruciante ansiedade, eminentemente geradora de stress, que, com frequência, fará nascer no indivíduo um penoso sentimento de frustração, de culpa, de inutilidade pessoal, situação que pode originar uma espiral complexa e perigosa de pensamentos e sentimentos depressivos, capaz de lhe causar a maior ruína pessoal.
Neste transe, o indivíduo pode até enveredar pela prática de todo o expediente, legal ou ilegal, que ele considere necessário para atingir os seus objectivos.
Se mesmo assim, não o conseguir, a situação pode tornar-se-lhe tão penosa que o leve a cair nas malhas da droga, loucura ou morte, trilogia de evocação amarga, para muitos portugueses, escapes, todavia, sempre possíveis, para situações de extrema aflição ou angústia, sentidas como insuportáveis.
No programa televisivo aludido, Alain de Botton, filósofo de pendor algo epicurista, ouso admitir, senhor de um extraordinário poder comunicativo, vai percorrendo localidades, países, inquirindo pessoas sobre o seu modo de vida, deixando-as falar, acrescentando as suas formulações filosóficas, num ritmo rápido, mas não obsessivo, em tom quase coloquial, que nos dispõe agradavelmente atentos e reflexivos, como porventura ele o desejou ao inventar o programa. Desafortunadamente, o programa chegou ao fim, há coisa de duas semanas.
Oxalá (expressão que, actualmente, confesso, me custa articular) voltem a apresentar este e outros que ele certamente ainda virá a fazer, porque é notória a sua aptidão comunicativa, ainda por cima, ao serviço da inteligência e do bom-senso, o que quer que seja que isto hoje signifique.
Com estes programas, o serviço público de Televisão sai honrado e contribui alguma coisa para a sanidade mental da população, fortemente abalada, com a dieta de Telenovelas e Concursos com que os diversos canais esgotam o seu horário chamado nobre. Dir-se-ia que só a partir da 1 da manhã libertam a programação daquela nefasta dieta, como se os que, àquela hora, estoicamente resistissem fossem os privilegiados do ócio ou os verdadeiramente isentos de horário laboral.
Esperemos que algum senso resida na cabeça dos responsáveis, para darem mais atenção à composição das programações televisivas. Terão de lembrar-se que o próprio público alvo não se situa esmagadoramente na casa dos 20-30 anos, mas pelo contrário tende a acompanhar a evolução geral das sociedades contemporâneas, com sectores de idosos cada vez mais importantes, aliás, grandes consumidores de programas de TV.
Estes acabam inevitavelmente, não obstante a sua fraca qualidade, por ser a sua principal companhia social, porque as famílias se reduziram e também não têm tempo para deles se ocuparem. De resto, hoje parece que ninguém tem tempo para coisa nehuma, excepto para aquilo que se imagina do interesse pessoal, imediato, ainda que, muitas vezes, esse imaginado interesse redunde numa decepção completa, fria, amarga e por demais deprimente.
Mas, o que é o Homem senão um incurável coleccionador de decepções, de angústias e de alguns, infelizmente poucos, para a maioria, momentos de alegria ?
São, no entanto, estes momentos de alegria, ainda que fugazes, que lhe permitem retomar a caminhada, persistindo na sua quimérica colecção.
AV_Lisboa, 05 de Março de 2006
Na sua génese, encontramos aquele banalizado conceito, segundo o qual só existe, socialmente, quem tem o genericamente ambicionado Estatuto Social, ou quem exibe os correspondentes sinais da sua existência.
É utilizada por Alain de Botton, no seu livro, a equação do bem-estar pessoal, também designada da Auto-Estima : S = Somatório das Realizações (pessoais)/Somatório das Expectativas (pessoais), que ele foi buscar a William James, filósofo americano do século XIX, muito interessado igualmente pela Psicologia e um dos primeiros a estudar o efeito das expectativas crescentes na auto-estima das pessoas, desta forma seriamente ameaçada.
Como vemos, trata-se de uma perversa equação, visto que, por regra, para a maioria dos indivíduos, o denominador cresce mais depressa que o numerador, por mais que o indivíduo se esforce... Salvo se ele, voluntariamente, reduzir significativamente as suas expectativas, coisa quase impossível, no contexto actual em que vive, com a omnipresente publicidade a lembrar-lhe, a cada instante, todos os objectivos, quase sempre apresentados com os decorrentes prazeres associados, que lhe falta atingir para se sentir animado de uma boa auto-estima.
Para esses objectivos terá, contudo, de trabalhar, com afinco, continuamente, quiçá, de modo insano...
Daí, a sua excruciante ansiedade, eminentemente geradora de stress, que, com frequência, fará nascer no indivíduo um penoso sentimento de frustração, de culpa, de inutilidade pessoal, situação que pode originar uma espiral complexa e perigosa de pensamentos e sentimentos depressivos, capaz de lhe causar a maior ruína pessoal.
Neste transe, o indivíduo pode até enveredar pela prática de todo o expediente, legal ou ilegal, que ele considere necessário para atingir os seus objectivos.
Se mesmo assim, não o conseguir, a situação pode tornar-se-lhe tão penosa que o leve a cair nas malhas da droga, loucura ou morte, trilogia de evocação amarga, para muitos portugueses, escapes, todavia, sempre possíveis, para situações de extrema aflição ou angústia, sentidas como insuportáveis.
No programa televisivo aludido, Alain de Botton, filósofo de pendor algo epicurista, ouso admitir, senhor de um extraordinário poder comunicativo, vai percorrendo localidades, países, inquirindo pessoas sobre o seu modo de vida, deixando-as falar, acrescentando as suas formulações filosóficas, num ritmo rápido, mas não obsessivo, em tom quase coloquial, que nos dispõe agradavelmente atentos e reflexivos, como porventura ele o desejou ao inventar o programa. Desafortunadamente, o programa chegou ao fim, há coisa de duas semanas.
Oxalá (expressão que, actualmente, confesso, me custa articular) voltem a apresentar este e outros que ele certamente ainda virá a fazer, porque é notória a sua aptidão comunicativa, ainda por cima, ao serviço da inteligência e do bom-senso, o que quer que seja que isto hoje signifique.
Com estes programas, o serviço público de Televisão sai honrado e contribui alguma coisa para a sanidade mental da população, fortemente abalada, com a dieta de Telenovelas e Concursos com que os diversos canais esgotam o seu horário chamado nobre. Dir-se-ia que só a partir da 1 da manhã libertam a programação daquela nefasta dieta, como se os que, àquela hora, estoicamente resistissem fossem os privilegiados do ócio ou os verdadeiramente isentos de horário laboral.
Esperemos que algum senso resida na cabeça dos responsáveis, para darem mais atenção à composição das programações televisivas. Terão de lembrar-se que o próprio público alvo não se situa esmagadoramente na casa dos 20-30 anos, mas pelo contrário tende a acompanhar a evolução geral das sociedades contemporâneas, com sectores de idosos cada vez mais importantes, aliás, grandes consumidores de programas de TV.
Estes acabam inevitavelmente, não obstante a sua fraca qualidade, por ser a sua principal companhia social, porque as famílias se reduziram e também não têm tempo para deles se ocuparem. De resto, hoje parece que ninguém tem tempo para coisa nehuma, excepto para aquilo que se imagina do interesse pessoal, imediato, ainda que, muitas vezes, esse imaginado interesse redunde numa decepção completa, fria, amarga e por demais deprimente.
Mas, o que é o Homem senão um incurável coleccionador de decepções, de angústias e de alguns, infelizmente poucos, para a maioria, momentos de alegria ?
São, no entanto, estes momentos de alegria, ainda que fugazes, que lhe permitem retomar a caminhada, persistindo na sua quimérica colecção.
AV_Lisboa, 05 de Março de 2006
Comments:
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Caro António, temos agora no canal RTP Memória outro grande programa: Leonard Bernstein a explicar os segredos da música sinfónica a leigos (como eu). Não tenho adjectivos para classificar o maestro. Aquilo não são apenas lições de música. São lições da arte de bem ensinar. Qualquer professor (ou pretendente a) devia ver exaustivamente os programas.
Sei que hoje, tal tipo de programa nunca teria um lugar num canal generalista. Mas não sou um pessimista, penso que temos outras riquezas, penso que temos outras fontes de informação que não existiam há duas ou três décadas. Mas combinar isso com a possibilidade de rever Bernstein, é um luxo.
Sei que hoje, tal tipo de programa nunca teria um lugar num canal generalista. Mas não sou um pessimista, penso que temos outras riquezas, penso que temos outras fontes de informação que não existiam há duas ou três décadas. Mas combinar isso com a possibilidade de rever Bernstein, é um luxo.
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